A água que deveria ser usada para combater o fogo em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, está abastecendo escolas particulares, igrejas e até mesmo um restaurante. O desvio foi comprovado pelo EXTRA, que acompanhou caminhões-pipas desde a saída do 4º Grupamento de Bombeiro Militar, na Avenida Governador Roberto da Silveira, 1.221, até os locais onde foram feitas as entregas (assista ao vídeo) .
Na quarta-feira, o entra-e-sai de caminhões começou cedo. Assim que a equipe chegou, às 9h40m, um caminhão-pipa atravessou o portão do quartel. Ele abasteceu rápido e saiu, às 9h50m, em direção à Posse. Dois minutos depois, um outro caminhão chegava. A movimentação parecia algo comum. Soldados e oficiais, que trabalhavam em obra na guarita, não conferiam os veículos que entravam.
Um segundo caminhão, que tinha entrado às 9h45m, saiu 11 minutos depois e foi acompanhado de perto. O veículo, de placa LPC 7910, da empresa Transportes Belém Ltda, seguiu até a Assembléia de Deus da Posse, na Rua Raymundo Brito de Oliveira, e, em cinco minutos, descarregou a água. Nas ruas, cada caminhão, com capacidade para armazenar dez mil litros de água, é vendido a preços que variam entre R$ 80 e R$ 250.
De volta ao quartel, a equipe do EXTRA seguiu o caminhão de placa KTW 0713, registrado no nome de Padre da Posse Restaurante Ltda (Bela Vista). Ele entrou no número 183 da Rua Frei Elpídio Chilanti, sede da empresa. E voltou ao quartel duas vezes, às 14h35m e 15h40m.
- Nossos carros trabalham para a Cedae, com autorização para abastecer sem pagar nada - disse Edson Muchelin, sócio da empresa Transportes Muchelin.
A Cedae disse que apenas quatro dos dez caminhões flagrados têm autorização para abastecer no quartel.
Entrega em Mesquita custa R$ 80 para escola particular
Diretor diz que não sabe de onde vem a água
No dia 7, dois caminhões-pipas saíram do quartel às 11h50m e tomaram rumos diferentes. A equipe do EXTRA acompanhou o veículo de placa GRN 3393, que está em nome da D Franco Máquinas, com sede em São João de Meriti. O motorista cruzou a Baixada Fluminense até chegar em Mesquita. Dentro da Chatuba, ele ainda se perdeu e precisou perguntar aos moradores como chegar ao Centro Educacional Paulo Lobato (escola do maternal até o 5º ano), localizado na Rua Abel de Alvarenga.
Dez mil litros
Após despejar dez mil litros d’água na caixa da escola particular, o caminhão foi embora. Sem saber o teor da reportagem, o diretor da escola - que não quis se identificar - disse que pagaria R$ 80, mas como ainda não tinha dado o dinheiro estava sem a nota fiscal. Depois de afirmar que sempre comprava água com eles, o diretor despistou e disse que o caminhão estava passando e a água foi oferecida.
- Não sei de onde vem essa água. Eles passaram aqui oferecendo e, como estava precisando, comprei - disse ele.
A secretária apresentou três notas fiscais antigas, do dia 7 de janeiro, no valor de R$ 80, de água comprada em outra empresa, de Mesquita.
- A gente sofre muito com a falta d’água aqui na região de Mesquita. Sempre temos que comprar - explicou a secretária, sem se identificar.
O EXTRA entrou em contato com a D Franco Máquinas, mas ninguém atendeu aos telefonemas.
Bica será fechada ainda hoje
Assim que tomou conhecimento do teor da reportagem, o presidente da Cedae, Wagner Victer, entrou em contato com o comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Pedro Marco Cruz Machado. Em comum acordo, eles decidiram fechar a bica a partir de hoje e abrir investigação sobre o caso.
- Existe contrato com algumas empresas de carros-pipas, que têm autorização da Cedae para abastecer escolas e hospitais públicos. Eles são cadastrados. Mas em escola particular não existe a menor hipótese de ser feito. Se tiver irregularidade, temos que trabalhar para corrigir - disse Victer.
‘Falha administrativa’
Segundo a Cedae, estavam autorizados os caminhões de placas: LOF 6903; KMP 2691; LPC 7910 e LRA 0236. O presidente da Cedae disse que não pode ser caracterizada a prática de crime. Seria apenas uma falha administrativa.
Comandante do 4º GBM, o tenente-coronel Evaristo Bezerra Costa Ferreira disse que a prática existe há sete anos. Segundo ele, algumas empresas, em convênio com a Cedae e a Companhia de Desenvolvimento de Nova Iguaçu, têm autorização, por meio de ofícios, para abastecer na bica d’água.
- Não sei o que leva um autorizado a fazer esse tipo de entrega - reclamou.